Hoje eu fui invadida por uma tristeza avassaladora, aconteceu que eu estava no ponto de onibus, no terminal Guadalupe, em uma fila enorme tremendo de frio, faziam 8 ou 9 graus e a manhã estava cinza e úmida, derrepente surgi um homem velho e cego, ele estava com uma camiseta surrada e encardida, calça de moletom e sandálias, segurava na mão esquerda uma sacolinha dessas que dão remédios em posto de saúde vazia e repetia com aquela voz tremula e tão baixa que quase não se ouvia :
- uma esmola, uma esmola...
eu não tive
reação estava hipnotizada, aquela imagem me assustou e
paralisou meus sentidos, pensava em como aqueles pés sem meias deviam estar gelados...
- uma esmola, uma esmola...
lágrimas começaram a escorrer de minha face me consolava o fato dele não poder me ver chorando, mais, minha vizinha via e me olhava com estranhamento, vi que o
onibus se aproximava e só então consegui mover meus braços, pegar minhas moedas e ouvir elas caindo dentro da
sacolinha de
remédios...
- uma esmola, uma esmola...
enquanto meu
onibus seguia para seu destino eu já não cabia ali, continuava chorando e agora com soluços e tudo e isso incomodava os passageiros, desci uns dois ou três
quilometros da minha casa, achei que seria bom andar, talvez eu deixasse que a tristeza se perdesse pelo caminho, mais não, eu não me livrei dela,começou a chover e então me dei conta que já não me importava mais, seja o que for a gente se acostuma e foi isso que me assustou no velho, aqueles pés gelados, aqueles olhos vazios a voz e tudo o mais, ele não estava ali pelas moedas nem por fome, a esmola que ele pedia quase que em silêncio era que livrassem ele daquela tristeza...
- uma esmola, uma esmola...
já de noite vi no jornal que um velho cego foi atropelado por um
onibus na
saída do terminal
Guadalupe, sorri sabendo que ele finalmente conseguiu o que queria e agora restava a mim continuar repetindo:
-uma esmola, uma esmola...