28 de agosto de 2009

sem meias

Hoje eu fui invadida por uma tristeza avassaladora, aconteceu que eu estava no ponto de onibus, no terminal Guadalupe, em uma fila enorme tremendo de frio, faziam 8 ou 9 graus e a manhã estava cinza e úmida, derrepente surgi um homem velho e cego, ele estava com uma camiseta surrada e encardida, calça de moletom e sandálias, segurava na mão esquerda uma sacolinha dessas que dão remédios em posto de saúde vazia e repetia com aquela voz tremula e tão baixa que quase não se ouvia :
- uma esmola, uma esmola... eu não tive reação estava hipnotizada, aquela imagem me assustou e paralisou meus sentidos, pensava em como aqueles pés sem meias deviam estar gelados... - uma esmola, uma esmola... lágrimas começaram a escorrer de minha face me consolava o fato dele não poder me ver chorando, mais, minha vizinha via e me olhava com estranhamento, vi que o onibus se aproximava e só então consegui mover meus braços, pegar minhas moedas e ouvir elas caindo dentro da sacolinha de remédios... - uma esmola, uma esmola... enquanto meu onibus seguia para seu destino eu já não cabia ali, continuava chorando e agora com soluços e tudo e isso incomodava os passageiros, desci uns dois ou três quilometros da minha casa, achei que seria bom andar, talvez eu deixasse que a tristeza se perdesse pelo caminho, mais não, eu não me livrei dela,começou a chover e então me dei conta que já não me importava mais, seja o que for a gente se acostuma e foi isso que me assustou no velho, aqueles pés gelados, aqueles olhos vazios a voz e tudo o mais, ele não estava ali pelas moedas nem por fome, a esmola que ele pedia quase que em silêncio era que livrassem ele daquela tristeza... - uma esmola, uma esmola... já de noite vi no jornal que um velho cego foi atropelado por um onibus na saída do terminal Guadalupe, sorri sabendo que ele finalmente conseguiu o que queria e agora restava a mim continuar repetindo: -uma esmola, uma esmola...

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